Restaura, Senhor, a nossa sorte
Há momentos na história do povo de Deus em que o coração transborda de gratidão, mas o presente ainda clama por intervenção divina. O Salmo 126 nasce exatamente nesse cenário de tensão espiritual: um povo que carrega na memória os grandes feitos do Senhor, mas que, ao olhar ao redor, percebe que nem tudo está plenamente restaurado. Eles haviam retornado do cativeiro babilônico após setenta anos de exílio — um evento tão extraordinário que parecia um sonho. As correntes foram quebradas, as portas se abriram e o povo voltou para casa. A alegria foi tamanha que o salmista declara: “Então a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua de cantos de alegria” (Sl 126.2). Até as nações reconheceram: “O Senhor fez grandes coisas por eles”.
Contudo, a realidade que encontraram ao retornar não correspondia totalmente às expectativas. A terra estava devastada, a cidade em ruínas, o templo destruído e a vida espiritual marcada por desafios profundos. O povo havia sido liberto do cativeiro, mas ainda não vivia a plenitude da restauração. É nesse ponto que o salmo ganha profundidade: ele não é apenas um cântico de celebração pelo passado, mas uma oração fervorosa pelo presente. O mesmo Deus que libertou do exílio precisava agora restaurar a sorte do povo, fazendo jorrar vida onde havia aridez, “como as torrentes no Neguev” (Sl 126.4).
Assim, o Salmo 126 nos conduz a uma reflexão honesta e necessária: lembrar com alegria o que Deus fez, reconhecer com humildade o que ainda precisa ser restaurado e clamar com fé pelo agir soberano do Senhor. Este salmo nos ensina que a história da fé não se sustenta apenas de memórias gloriosas, mas de uma dependência contínua de Deus, que continua sendo o único capaz de transformar desertos em campos férteis. Diante disso, o clamor permanece atual e urgente: “Restaura, Senhor, a nossa sorte.”
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